Pragas no milho

Pragas no milho: identificação, fases e manejo integrado

As pragas no milho são um dos principais fatores de perda de produtividade na cultura, presentes desde a germinação até o enchimento de grãos. Cada fase do ciclo expõe a planta a um grupo diferente de organismos, e a identificação precoce, aliada a um manejo estruturado, é o que separa lavouras produtivas de lavouras comprometidas.

Este post percorre as principais pragas no milho, organiza o entendimento por fase de ataque e apresenta como o manejo integrado, incluindo o controle biológico, pode reduzir perdas de forma consistente e sustentável.

Por que as pragas no milho exigem atenção permanente

O ciclo do milho dura entre 110 e 150 dias dependendo do híbrido e da região, e em cada fase a planta apresenta estruturas e composição distintas que atraem grupos específicos de pragas. Durante a germinação, as sementes e o mesocótilo são alvo de larvas de solo. No período vegetativo, folhas e colmo são atacados por lagartas e sugadores. Na fase reprodutiva, espigas e grãos passam a ser o foco.

Além dos danos diretos, como desfolha, perfuração de grãos e destruição de raízes, existem os danos indiretos: a cigarrinha-do-milho, por exemplo, transmite fitoplasmas causadores do enfezamento, e o ataque de lagartas abre ferimentos que facilitam a entrada de fungos produtores de micotoxinas. No Brasil, um dos maiores produtores mundiais de milho, a pressão de pragas é constante e tende a se intensificar com a expansão das áreas cultivadas e a sucessão de culturas. Por isso, a lógica deste post segue a sequência prática: identificar, entender o dano e estruturar o manejo integrado.

Principais pragas no milho por fase de ataque

Conhecer em qual fase cada praga se manifesta ajuda a calibrar o monitoramento e a antecipar as decisões de manejo. A tabela abaixo organiza as principais pragas no milho por fase de ataque, parte atingida e nível geral de dano econômico potencial.

Praga Nome científico Fase de ataque Parte atacada Nível de dano potencial
Lagarta-do-cartucho Spodoptera frugiperda Vegetativo (V3, V8) Folhas, cartucho Alto
Lagarta-rosca Agrotis ipsilon Germinação / plântula Colmo rente ao solo Alto (em foco de ataque)
Lagarta-elasmo Elasmopalpus lignosellus Germinação / vegetativo inicial Base do colmo / broto central Alto (em veranicos)
Corós / larva-branca Phyllophaga spp., Cyclocephala spp. Germinação / vegetativo Raízes Médio a alto
Larva-arame Conoderus spp. Germinação Sementes, mesocótilo Médio
Cigarrinha-do-milho Dalbulus maidis Vegetativo inicial Seiva / transmissão de fitoplasmas Alto (indireto)
Pulgão-do-milho Rhopalosiphum maidis Vegetativo / reprodutivo Folha bandeira, espiga Médio a alto
Percevejo-barriga-verde Dichelops melacanthus Vegetativo inicial Colmo jovem Médio a alto

A tabela evidencia que as pragas de solo concentram risco nas fases iniciais, quando o dano ao estande é irreversível, enquanto as pragas foliares e sugadoras se distribuem ao longo do ciclo. Essa visão de conjunto orienta onde concentrar esforços de monitoramento em cada etapa da lavoura.

Lagarta-do-cartucho: a praga mais frequente na cultura

A Spodoptera frugiperda, conhecida como lagarta-do-cartucho, é a praga mais relevante do milho no Brasil. Lagartas jovens são esverdeadas e raspam o tecido foliar, causando um aspecto translúcido característico. Ao atingir instares mais avançados, desenvolvem listras dorsais e uma marcação em forma de Y invertido na cápsula cefálica, sinal seguro de identificação. O sintoma clássico é o cartucho com perfurações irregulares e acúmulo de fezes com aparência de serragem no interior das folhas enroladas.

A janela crítica de ataque vai dos estádios V3 a V8. Nesse período, o ponto de crescimento ainda está protegido dentro do cartucho e o dano intenso pode comprometer o desenvolvimento da planta de forma irreversível. O conceito de nível de controle, ou seja, o percentual de plantas atacadas a partir do qual a intervenção se torna economicamente justificada, deve ser definido com base em recomendação técnica local e orientação oficial, já que varia conforme a intensidade e o estádio da infestação.

Um fator que torna o manejo da lagarta-do-cartucho cada vez mais complexo é o desenvolvimento de resistência aos inseticidas convencionais. Populações com resistência a múltiplos ingredientes ativos já foram confirmadas em diversas regiões do país. Esse cenário tornou o manejo integrado de pragas não apenas recomendável, mas indispensável. Saiba mais sobre os mecanismos de ação dos inseticidas biológicos aplicados ao controle de lagartas para aprofundar a compreensão das alternativas disponíveis.

Pragas de solo que atacam antes e logo após a germinação

As pragas de solo merecem atenção especial porque os sintomas muitas vezes aparecem quando o dano já está consumado. A inspeção do solo antes do plantio, especialmente em áreas com histórico de pastagem ou palhada intensa, é a principal ferramenta de antecipação.

  • Corós (Phyllophaga spp., Cyclocephala spp.): larvas que consomem raízes em profundidade, causando murcha e morte de plantas sem causa aparente na parte aérea. O risco é maior em áreas recém-convertidas de pastagem, onde a população de larvas acumulada no solo pode ser elevada.
  • Larva-arame (Conoderus spp.): perfura sementes e o mesocótilo logo após a germinação, reduzindo diretamente o estande. O dano é puntiforme e difícil de distinguir de problemas de semente ou fungos sem inspeção cuidadosa.
  • Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon): corta o colmo rente ao solo durante a noite, derrubando plântulas. O inseto adulto voa e a distribuição dos focos pode ser irregular dentro do talhão.
  • Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus): perfura o colmo na base, destruindo o broto central e provocando o sintoma de coração morto. O dano é agravado por condições de estresse hídrico, sendo mais comum em períodos de veranico.
  • Dificuldade de diagnóstico: sintomas como murcha, amarelecimento e falhas de estande são facilmente confundidos com deficiências nutricionais ou doenças. Puxar a planta e inspecionar raízes, colmo e solo ao redor é essencial antes de definir a causa.

Cigarrinha, pulgão e percevejo: pragas sugadoras e transmissoras

As pragas sugadoras causam dano duplo: o dano direto pela retirada de seiva e o dano indireto pela transmissão de patógenos e pela indução de estresse fisiológico. A Dalbulus maidis, cigarrinha-do-milho, é o exemplo mais crítico: ela é o principal vetor dos fitoplasmas responsáveis pelo enfezamento pálido e pelo enfezamento vermelho do milho, doenças que podem reduzir drasticamente a produtividade dependendo da época de infecção. Nesses casos, o dano indireto supera em muito o direto causado pela sucção de seiva.

O pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis) forma colônias densas na folha bandeira e nas espigas em desenvolvimento, comprometendo a fotossíntese e o enchimento de grãos. Situações de estresse hídrico favorecem o crescimento populacional rápido, tornando o monitoramento ainda mais crítico em anos com distribuição irregular de chuvas.

Já o percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus) ganhou relevância nos sistemas de plantio direto com palhada de soja. Ninfas e adultos sugam o colmo jovem nos primeiros estádios vegetativos, provocando o sintoma de coração morto, semelhante ao da lagarta-elasmo, mas com pontos de sucção visíveis na base da planta. Plantios tardios de milho safrinha, realizados após a colheita da soja, concentram maior risco de ataque, pois os percevejos migram da soja para o milho em desenvolvimento. O monitoramento deve incluir inspeção semanal nos primeiros 30 dias após a emergência, com caminhamento em pontos distribuídos pelo talhão.

Controle biológico como pilar do manejo integrado de pragas no milho

O manejo integrado de pragas (MIP) estrutura as decisões em três pilares: monitoramento contínuo, comparação com o nível de controle e escolha da tática mais adequada entre as opções biológica, cultural e química. O controle biológico ocupa posição central nesse sistema porque preserva os inimigos naturais presentes na lavoura e mantém a eficiência das demais táticas a longo prazo. A Embrapa Milho e Sorgo dispõe de amplo acervo técnico sobre o MIP na cultura, incluindo recomendações práticas para diferentes regiões produtoras.

Para o controle da lagarta-do-cartucho, os principais agentes biológicos disponíveis são:

  • Bacilo thuringiensis var. kurstaki e var. aizawai: bactérias entomopatogênicas que produzem proteínas com ação inseticida específica para lepidópteros, amplamente utilizadas em formulações comerciais e registradas no Brasil.
  • Baculovirus spodoptera: vírus específico para Spodoptera frugiperda, com alto grau de especificidade e compatibilidade com inimigos naturais.
  • Beauveria bassiana: fungo entomopatogênico de amplo espectro de ação, eficaz sobre lagartas e outros insetos-praga.
  • Metarhizium rileyi: fungo com especificidade elevada para lepidópteros, incluindo a lagarta-do-cartucho.
  • Telenomus remus e Trichogramma spp.: parasitoides de ovos que atuam na supressão da população antes mesmo da eclosão das lagartas.

A produção on-farm de bioinsumos, com o uso de biorreatores adequados, permite que o produtor mantenha disponibilidade contínua de agentes como Bacilo thuringiensis e Beauveria bassiana na propriedade, reduzindo dependência logística e garantindo aplicação no momento certo da janela de controle. Essa abordagem, quando apoiada por equipamento adequado e protocolo técnico validado, é uma das mais eficientes para integrar o controle biológico à rotina da lavoura.

Como estruturar o monitoramento e reduzir perdas na prática

O monitoramento sistemático é o que transforma o conhecimento sobre pragas no milho em ação assertiva. Sem ele, as decisões de manejo ficam dependentes de percepções visuais tardias ou de calendários fixos, que raramente correspondem à realidade da infestação. O protocolo abaixo resume as etapas fundamentais, adaptáveis à escala e ao perfil de cada propriedade.

  1. Mapear a área e levantar o histórico: identificar quais pragas ocorreram nas últimas safras, em quais talhões e em que intensidade. Áreas com histórico de coró ou lagarta-elasmo exigem atenção redobrada antes mesmo do plantio.
  2. Definir frequência e pontos de amostragem: realizar caminhamento em zigue-zague, cobrindo o mínimo de pontos representativos por talhão conforme orientação técnica local. A frequência indicada é semanal durante os estádios mais vulneráveis.
  3. Identificar a praga e o estádio de desenvolvimento: nenhuma decisão de manejo deve ser tomada sem confirmação da espécie e do momento do ciclo de vida em que ela se encontra. Lagartas em instares iniciais respondem melhor aos agentes biológicos.
  4. Comparar com o nível de controle: confrontar o percentual de plantas atacadas ou a densidade populacional observada com os níveis de controle estabelecidos para a região, disponíveis na orientação técnica oficial e no suporte do fabricante de insumos.
  5. Escolher a tática adequada: biológico, cultural, químico ou combinação de táticas. Antes de qualquer mistura em calda, confirmar a compatibilidade entre o bioinsumo e o defensivo agrícola na bula ou tabela do fabricante, pois muitos produtos fitossanitários inativam o microrganismo.
  6. Registrar e avaliar: anotar data, talhão, praga, nível de infestação, produto utilizado e resultado observado. Esse registro é a base para ajustar a estratégia na safra seguinte e para rastrear a evolução da pressão de pragas na propriedade.

A assistência técnica especializada é indispensável para calibrar os níveis de controle à realidade regional e para interpretar situações atípicas. Para estruturar melhor o planejamento da proteção da lavoura, consulte também as orientações sobre monitoramento e manejo integrado de pragas na lavoura. Aplicar cada etapa com disciplina é o que converte o monitoramento em resultado concreto de produtividade.

Perguntas Frequentes sobre Pragas no milho

Qual é a praga mais prejudicial ao milho no Brasil?

A Spodoptera frugiperda, conhecida como lagarta-do-cartucho, é a praga com maior frequência e impacto econômico no milho brasileiro. Ela ataca desde os estádios vegetativos iniciais até a fase reprodutiva. A pressão populacional varia conforme a região e a época de plantio, o que reforça a importância do monitoramento contínuo.

Como identificar a lagarta-do-cartucho no milho?

Os sinais mais comuns são furos e raspagens nas folhas do cartucho, além do acúmulo de fezes com aparência de serragem escura. A própria lagarta apresenta uma marca em Y invertido na cápsula cefálica, característica da espécie. Recomenda-se iniciar a inspeção a partir do estádio V3, com visitas periódicas à lavoura.

O que é nível de controle e como usar no manejo de pragas no milho?

Nível de controle é a densidade populacional de uma praga a partir da qual o custo do dano supera o custo da intervenção. Ele orienta a tomada de decisão sem antecipações desnecessárias. Consulte as recomendações técnicas regionais e conte com assistência especializada: o monitoramento frequente é o que garante a ação no momento certo.

Bacillus thuringiensis funciona contra a lagarta-do-cartucho?

Sim. As variedades Bacilo thuringiensis kurstaki e aizawai apresentam ação comprovada sobre a lagarta-do-cartucho, com melhor eficiência em lagartas jovens, de 1º e 2º ínstar. O resultado depende diretamente da aplicação no momento correto e da qualidade do bioinsumo utilizado, especialmente quanto à viabilidade e concentração dos esporos.

Cigarrinha-do-milho causa dano direto à planta?

O dano por sucção é secundário. O principal problema da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) é a transmissão dos fitoplasmas causadores dos enfezamentos pálido e vermelho, doenças que reduzem significativamente a produtividade. Não há cura após a infecção, o que torna o controle do inseto vetor e o monitoramento precoce as principais estratégias de manejo.

Como prevenir pragas de solo no milho?

A prevenção começa com análise do histórico da área e inspeção do solo antes do plantio. Rotação de culturas, tratamento de sementes quando tecnicamente indicado e monitoramento do estande após a emergência completam a estratégia. A assistência técnica é fundamental para definir as medidas adequadas a cada situação e histórico de infestação.

¿Puedo mezclar bioinsumos con pesticidas agrícolas en el mismo tanque?

Não sem verificação prévia. Muitos fungicidas e defensivos agrícolas inativam os microrganismos presentes nos bioinsumos. Antes de qualquer mistura em calda, é obrigatório confirmar a compatibilidade na bula ou na tabela oficial do fabricante. Nunca realize a mistura sem essa etapa, pois o risco de inativação compromete completamente a eficiência do bioinsumo.

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