Pragas na cana-de-açúcar

Pragas na cana-de-açúcar: danos e controle eficaz

As pragas na cana-de-açúcar estão entre os principais fatores que comprometem a produtividade e a rentabilidade do setor sucroenergético brasileiro. Da germinação dos toletes até a colheita, o canavial está exposto a um conjunto diverso de insetos e organismos que atacam raízes, colmos e folhas, muitas vezes sem sinais visíveis até que o dano já seja expressivo.

Conhecer cada praga, entender os danos que ela causa e adotar uma estratégia de manejo estruturada é o caminho mais eficiente para proteger a lavoura sem elevar desnecessariamente o custo de produção. Este post apresenta as principais pragas do canavial, seus impactos e as ferramentas disponíveis para um controle eficaz e sustentável.

Quais são as principais pragas na cana-de-açúcar

O canavial brasileiro convive com dezenas de espécies com potencial de causar dano econômico. A Embrapa reconhece mais de 80 espécies associadas à cultura, mas um grupo menor concentra os maiores prejuízos na maioria das regiões produtoras. Conhecer essas espécies pelo nome popular e científico é o primeiro passo para um monitoramento eficiente.

  • Broca da cana (Diatraea saccharalis): a praga de maior distribuição no Brasil, presente em praticamente todas as regiões canavieiras, com danos diretos ao colmo e à qualidade do caldo.
  • Cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata): predominante no Centro-Sul, causa lesões foliares e morte de perfilhos, com impacto direto na fotossíntese.
  • Cigarrinha das folhas (Mahanarva posticata): mais frequente no Nordeste, provoca sintomas semelhantes aos da cigarrinha das raízes.
  • Cupins (Heterotermes tenuis e outras espécies): atacam toletes durante a germinação e raízes em canas estabelecidas, causando falhas de estande difíceis de recuperar.
  • Bicudo da cana (Sphenophorus levis): praga de solo cujas larvas destroem a base do colmo; o ataque subterrâneo dificulta a detecção precoce.
  • Broca gigante (Telchin licus): ocorrência regional, com maior frequência em áreas do Nordeste e Norte; perfura colmos com orifícios maiores que os da broca comum, causando perdas estruturais expressivas.
  • Besouro da raiz (Migdolus fryanus): larvas se alimentam de raízes profundas, provocando murcha e morte de plantas sem sintomas visíveis acima do solo.

Como identificar os danos de cada praga na lavoura

O diagnóstico correto em campo é fundamental antes de qualquer decisão de manejo. Cada praga deixa sinais distintos, e confundir os sintomas pode levar a intervenções erradas e gastos desnecessários. A tabela abaixo resume os principais sintomas associados a cada praga.

Praga Nome científico Sinais de dano característicos Parte afetada
Broca da cana Diatraea saccharalis Galerias internas no colmo, coração morto em plantas jovens, colmos com orifícios e serragem (frass) Colmo
Cigarrinha das raízes Mahanarva fimbriolata Lesões alaranjadas nas folhas, secamento do ápice, morte de perfilhos, espuma branca nas raízes Folhas e raízes
Cupins Heterotermes tenuis Falhas na germinação, toletes ocos ou apodrecidos, manchas irregulares no campo Toletes e raízes
Bicudo da cana Sphenophorus levis Cavidades na base do colmo, tombamento súbito de plantas aparentemente sadias Base do colmo
Broca gigante Telchin licus Orifícios maiores no colmo, serragem exposta, perda estrutural evidente Colmo
Besouro da raiz Migdolus fryanus Murcha sem causa aparente, raízes cortadas ao escavar o solo, ausência de sintoma aéreo inicial Raízes profundas

O monitoramento sistemático, com amostragem periódica de colmos, escavação de pontos com falha e avaliação visual de folhas, é a única forma de detectar infestações antes que os danos se tornem economicamente relevantes. Reagir apenas ao que já está visível costuma ser tarde demais.

Impacto econômico das pragas na cana-de-açúcar

As perdas causadas pelas pragas na cana-de-açúcar são tanto quantitativas quanto qualitativas. A broca da cana, por exemplo, reduz o peso do colmo devido às galerias internas e, ao mesmo tempo, favorece a entrada de microrganismos que degradam a sacarose, comprometendo o rendimento industrial. Dependendo do nível de infestação e da época do ataque, a queda no teor de sacarose pode ser expressiva, afetando diretamente o retorno por tonelada processada.

A cigarrinha das raízes reduz a área foliar ativa, comprometendo a fotossíntese e o acúmulo de açúcares ao longo do ciclo. Já cupins e bicudo provocam falhas de estande que elevam o custo de replantio e encurtam a vida produtiva do canavial, exigindo reforma antecipada de áreas que poderiam produzir por mais cortes.

Pragas secundárias também merecem atenção. O estresse hídrico e o desequilíbrio causado pelo uso intensivo e não seletivo de defensivos agrícolas podem favorecer o ressurgimento de populações de pragas antes controladas por inimigos naturais. Esse efeito rebote é um dos argumentos mais sólidos para a adoção do manejo integrado de pragas como estratégia central, e não como recurso emergencial.

Manejo Integrado de Pragas (MIP) na cana-de-açúcar

O MIP parte de um princípio simples: nenhum método de controle, isoladamente, é suficiente para manter as pragas abaixo do nível de dano econômico ao longo de todos os ciclos do canavial. A base do sistema é o monitoramento regular, que orienta o momento certo de agir e o método mais adequado para cada situação, evitando intervenções desnecessárias.

O controle cultural é o primeiro pilar. A escolha de variedades com tolerância ou resistência às pragas predominantes na região já reduz a pressão inicial sobre o canavial. O preparo adequado do solo antes do plantio elimina focos de cupins e larvas de besouros. O manejo de palhada após a colheita mecânica, por sua vez, interfere no ciclo de vida de várias espécies.

O controle com inseticidas biológicos ocupa papel central no MIP canavieiro moderno, especialmente com agentes como parasitoides e fungos entomopatogênicos que atuam diretamente sobre as espécies-alvo sem prejudicar os inimigos naturais presentes no campo. O controle químico com defensivos agrícolas permanece como ferramenta complementar, indicado quando o nível de infestação supera o limiar de ação e os demais métodos não são suficientes. Registrar ocorrências, datas, níveis de infestação e respostas a cada intervenção cria um histórico valioso para decisões futuras e aumenta a rastreabilidade do manejo.

Controle biológico das pragas na cana-de-açúcar: organismos e resultados

O controle biológico é, hoje, uma das estratégias mais consolidadas no manejo das pragas na cana-de-açúcar. O setor sucroenergético brasileiro foi pioneiro na adoção em escala comercial de agentes biológicos, com programas que remontam a décadas e resultados amplamente documentados.

  • Cotesia flavipes: parasitoide larval da broca Diatraea saccharalis; é o programa de liberação mais consolidado do setor, com liberações inundativas realizadas em milhões de hectares anualmente em usinas organizadas.
  • Trichogramma galloi e Trichogramma atopovirilia: parasitoides de ovos da broca; as liberações inundativas reduzem a taxa de eclosão das lagartas antes mesmo que causem dano ao colmo.
  • Metarhizium anisopliae: fungo entomopatogênico de ampla utilização para cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata) e cupins; age por contato, colonizando e matando o inseto.
  • Beauveria bassiana: uso crescente para bicudo da cana e outras pragas de solo, com boa compatibilidade em programas de MIP.
  • Cordyceps fumosorosea (anteriormente classificado em Isaria): alternativa emergente para cigarrinhas, com estudos indicando potencial para compor rotações com outros fungos entomopatogênicos.

Esses agentes são produzidos e aplicados em escala comercial tanto em biofábricas industriais quanto diretamente nas fazendas. A produção on-farm com biorreator adequado permite que o produtor tenha agentes biológicos frescos disponíveis no momento exato das liberações, sem depender de prazo de entrega ou perda de viabilidade no transporte. Essa flexibilidade é especialmente importante em programas de liberação de Cotesia flavipes e Trichogramma, onde o sincronismo com o ciclo da praga é determinante para o resultado. O crescimento do uso de bioinsumos no setor canavieiro reflete uma mudança estrutural no modelo de proteção de lavouras, cada vez mais orientada por resultado e sustentabilidade.

Defensivos agrícolas no controle de pragas da cana: quando e como usar

Os defensivos agrícolas têm papel complementar no manejo das pragas na cana-de-açúcar e não devem ser a primeira linha de resposta. A decisão de aplicar um produto fitossanitário deve ser baseada em critérios objetivos: nível de infestação acima do limiar de ação, fase da cultura, relação custo-benefício e disponibilidade de alternativas biológicas viáveis para aquele momento.

O produtor deve consultar o Agrofit do MAPA para verificar os produtos registrados para cada praga-alvo na cultura da cana. A seletividade é um critério essencial na escolha: produtos de amplo espectro podem eliminar inimigos naturais presentes no campo e desequilibrar o controle biológico que já ocorre naturalmente no canavial, exigindo mais intervenções no futuro.

Um ponto crítico no manejo integrado é a compatibilidade entre defensivos e bioinsumos. Não se deve misturar nem aplicar bioinsumos em sequência a defensivos agrícolas sem antes confirmar a compatibilidade na bula ou na tabela do fabricante, pois muitos produtos fitossanitários inativam o microrganismo e comprometem todo o programa biológico. Consulte também o post sobre classificação e uso seguro de defensivos agrícolas para aprofundar o tema.

Boas práticas para prevenir pragas na cana-de-açúcar

A prevenção é sempre mais eficiente do que o combate. Um conjunto de práticas bem executadas desde o planejamento do plantio reduz significativamente a pressão das pragas na cana-de-açúcar ao longo dos cortes, diminuindo custos e preservando a longevidade do canavial.

  • Escolha de variedades com tolerância ou resistência comprovada às pragas predominantes na região, considerando recomendações do programa varietal da usina ou de entidades de pesquisa.
  • Rotação de áreas e manejo de palhada: a rotação reduz populações residentes de pragas de solo; o manejo da palhada interfere no ciclo de cupins, cigarrinhas e besouros.
  • Controle de formigas cortadeiras e plantas daninhas que servem de hospedeiras alternativas para insetos praga, especialmente em bordaduras e áreas de reforma.
  • Equilíbrio nutricional: plantas bem nutridas toleram melhor o ataque de pragas e se recuperam com mais eficiência de danos pontuais.
  • Monitoramento periódico como rotina, não como reação a danos já visíveis; a amostragem regular permite identificar o início de uma infestação e agir dentro do nível de ação.
  • Planejamento da estratégia biológica desde o plantio: definir datas de liberação de parasitoides, cronograma de aplicação de fungos entomopatogênicos e pontos de amostragem antes mesmo da emergência das plantas garante que o programa biológico funcione de forma proativa e não apenas como resposta a picos de infestação.

Integrar prevenção, monitoramento e controle biológico dentro de uma estratégia coerente é o que diferencia um programa de MIP eficiente de ações isoladas e reativas. Com as ferramentas certas e um protocolo bem definido, é possível manter as pragas na cana-de-açúcar em níveis que não comprometam a produtividade nem a viabilidade econômica do negócio.

Perguntas Frequentes sobre Pragas na cana-de-açúcar

Qual é a praga mais prejudicial na cana-de-açúcar no Brasil?

A broca Diatraea saccharalis é a praga mais amplamente distribuída e economicamente relevante na cana-de-açúcar brasileira, presente em praticamente todas as regiões produtoras. A cigarrinha das raízes (Mahanarva fimbriolata) também causa danos severos, especialmente em áreas sem queima e com maior umidade no solo.

Como identificar ataque de broca na cana-de-açúcar?

Os principais sintomas são: coração morto em plantas jovens, galerias internas no colmo, presença de serragem (frass) nos internódios e redução no teor de sacarose. A identificação segura exige amostragem sistemática em campo, avaliando o percentual de colmos brocados por talhão em intervalos regulares.

O controle biológico funciona para pragas da cana-de-açúcar?

Sim, e com histórico consolidado. O parasitoide Cotesia flavipes é amplamente utilizado contra a broca, enquanto Metarhizium anisopliae atua sobre cigarrinha e cupins. O controle biológico é o método mais adotado no setor sucroenergético brasileiro, com décadas de resultados documentados em campo.

Posso usar defensivos agrícolas junto com agentes biológicos na cana?

Não se deve misturar defensivos agrícolas com bioinsumos sem antes confirmar a compatibilidade na bula ou tabela do fabricante, pois muitos produtos fitossanitários inativam os microrganismos benéficos. Recomenda-se consultar assistência técnica especializada para definir janelas de aplicação seguras e eficientes para cada situação.

O que é o Manejo Integrado de Pragas na cana-de-açúcar?

O MIP é uma abordagem que combina monitoramento sistemático, nível de ação econômica, controle biológico, medidas culturais e uso racional de defensivos agrícolas. O objetivo é reduzir danos ao canavial com o menor impacto possível sobre o ambiente, sempre baseando a decisão de controle em dados concretos de campo.

Cupim causa dano relevante na cana-de-açúcar?

Sim. Cupins atacam toletes recém-plantados e gemas na fase de estabelecimento da cultura, provocando falhas de estande e reduzindo a longevidade do canavial. O dano é mais crítico justamente nessa fase inicial, quando a planta ainda não formou sistema radicular robusto para compensar o ataque.

Como a produção on-farm de bioinsumos ajuda no controle de pragas da cana?

Produzir agentes biológicos na própria fazenda, com biorreator adequado, garante disponibilidade do insumo no momento exato em que a praga atinge o nível de ação. Além disso, o produtor trabalha com microrganismos frescos e viáveis, sem depender de logística externa, o que aumenta a eficácia do controle biológico.

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